22 de Agosto de 2016

Reflexões musicais

Elaine Sandoval é estudante de PhD em etnomusicologia na Universidade da Cidade, em Nova York

Elaine entende a música como capaz de cultivar a imaginação, a abertura e senso de auto necessidade para navegar por universos culturais cada vez mais complexos

Elaine Sandoval, cursa o PhD em etnomusicologia e é uma apaixonada por música

A quase PhD em etnomusicologia, Elaine Sandoval, é uma apaixonada por música. Este texto retrata algumas reflexões desta pesquisadora e convida os leitores a buscarem novas possibilidades de uso do aprendizado em artes em geral. Elaine é ainda mestre em Música pela Universidade de Oxford, e também pesquisadora associada do Instituto de Pesquisas em Música da Associação Min-On, do Japão, instituição ligada à Soka Gakkai.


 Quando ainda cursava a escola primária, sua mãe a levava para concertos de orquestra. Ela se recorda de sua mãe, antes do concerto ou enquanto esperavam na fila do intervalo, calmamente incentivando-a a observar as outras pessoas ao redor. Fazia pequenas descrições de suas posturas, comportamento, olhares. Através destas observações demográficos, Elaine disse ter aprendido bastante sobre o ser humano. Aquelas simples descrições ajudaram-na muito quando estava estudando para se tornar uma instrumentista clássica.


Na escola secundária participou em um pequeno conjunto de câmara com outras garotas da sua idade. Reproduziam um repertório que incluia muitas peças japonesas. Um dia o ensaio foi gentilmente interrompido por um professor que incentivou-os a pensar em atender a um público numa determinada área da baia de San Francisco. Para este público deveriam buscar incluir músicas das culturas coreana e chinesa. Também convidou-os a pensar sobre o que as pessoas daquelas etnias poderiam sentir ao ouvir essas músicas, se se lembrariam de fatos importantes, belos ou tristes como os momentos violentos de seu passado colonial.


De volta à escola primária, ela recorda-se de se deleitar escorregando em sapatos de dança de salto alto por uma hora de ensaio de dança folclórica mexicana. Em meio ao conteúdo do ensino regular, buscava incansavelmente por indícios que identificassem o conteúdo dos repertórios musicais das bandas folclóricas. A cada descoberta regozijava-me como quem descobre um segredo, com a sensação de poder abraçar plenamente toda a sua herança, as memórias de seus avós e encontrar-se em um mundo que não exige assimilação.


Teve a oportunidade de fazer um estágio musical na China. Sua senhoria gentilmente a levava aos ensaios do coral da terceira idade nos fins de semana. Ali, canções e memórias da era Mao eram revisitadas. Exclamou que sentia verdadeiros êxtases musicais ao posicionar sua voz em meio a harmonias desconhecidas e em meio a palavras em chinês que aprendia em sala de aula, cujos sons eram totalmente distintos dos que conhecia.


Elaine conta que os modelos típicos da educação musical, muitas vezes recorrendo aos valores da música ocidental clássica, tendem a privilegiar a ideia de que a educação musical, desde a infância, é valiosa como um mecanismo de mobilidade social, ou uma maneira de ganhar conhecimento e hábitos das classes privilegiadas. Ou ainda obter habilidades para o sucesso profissional. “Eu treinei com seriedade e rigor como músicista clássica por mais de uma década e, de fato, obtive muitas habilidades privilegiadas e entendimentos complexos sobre diversos assuntos. Porém, é em outras experiências de educação musical que eu continuei a refletir e pesquisar. Essas experiências me forçaram a imaginar as realidades dos outros e contextos além dos meus próprios, reflexões que exigiam novas ousadias, desconfortos e flexibilidade que mudaram minha compreensão de mundo”, explica.


Por muito tempo, as ideias sobre educação musical enfatizaram o valor da mobilidade social. Elaine acredita que a música enquanto instrumento pedagógico também permite a mobilidade em múltiplas dimensões que não só a social. É uma linguagem que pode dar o acesso a formas alternativas de ser, à medida que proporciona uma compreensão empática das experiências dos outros e a um entendimento aprofundado da própria realidade. “Como tal, eu entendo a música como capaz de cultivar a imaginação, a abertura e senso de auto necessidade para navegar por universos culturais cada vez mais complexos!”, exclama.


O filósofo da educação David Hansen considera essa sensibilidade como forma de cosmopolitismo. Hansen esclarece que uma educação cosmopolita cultiva ao mesmo tempo uma lealdade para com o conhecido e uma abertura para o novo, bem como uma compreensão das diferentes formas de estar no mundo. Segundo Elaine, a aprendizagem de música, especialmente as harmonias que representam uma diversidade de contextos sociais, contribui imensamente para fomentar o cosmopolitismo.


Suas próprias experiências musicais ao acaso lhe ensinaram a abrir-se para outras formas de música, incorporando aquelas que representavam memórias históricas, mundos sociais e sentimentos. Ajudaram-na a compreender a neutralidade, a riqueza e a universalidade de todas experiências, e rechaçar a ideia preconceituosa de que a música das culturas minoritárias pertencente apenas à periferia.


Estas novas sensibilidades que surgiram a partir de diversas experiências musicais mudaram sua forma de pensar e de imaginar as experiências dos outros. Mas elas também a levaram a repensar o que poderia ser incluído na educação musical. Elaine entendeu que o desenvolvimento da educação musical que busque o cosmopolitismo não só permite apenas novas formas de imaginação individual, mas também formas de re-imaginar radicalmente as normas pedagógicas.


Embora as experiências musicais compartilhadas neste texto sejam únicas e acidentais, e ela ainda não possua propostas concretas para colocar essas ideias em prática, Elaine quer com elas, oferecer estas reflexões como um ponto de partida e convidar outras pessoas a se juntar a ela neste caminho da educação musical cosmopolita como formação de seres humanos íntegros.

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