Um combatente pela paz e justiça

É meu ardente desejo que a humanidade se livre do ciclo
da guerra e crie sucessivas gerações de pessoas imbuídas de
um profundo respeito pela dignidade da vida.
(Josei Toda)

– Juro banir a miséria da face da Terra! – esse foi o brado de indignação de um homem destemido ao se ver cercado pelas ruínas de um país derrotado moral e fisicamente. Josei Toda, o discípulo fiel de Tsunesaburo Makiguchi, sobrevivera à prisão, mas seu mestre se fora para sempre. O indescritível sofrimento experimentado nesta ocasião foi o estopim para fincar uma firme determinação em sua mente, a despeito das paredes desoladoras que tinham por finalidade, oprimi-lo. Ali, sozinho, fechado em sua cela, Toda sentiu a infinita alegria da Lei Suprema, ao atingir a Iluminação, ou a Sabedoria Ilimitada. A partir daí, nada ou ninguém poderia impedi-lo de cumprir dignamente o propósito de seu advento nesta Terra.

A história de Josei Toda inicia-se na província de Ishikawa, ao norte da ilha de Honshu no Japão, em 11 de fevereiro de 1900. Caçula de uma prole numerosa, Toda desde cedo percebe que a vida, para ser experienciada plenamente, deve possuir um significado, ou será uma existência inútil. O falecimento de seu irmão mais velho, quando contava com apenas oito anos de idade, choca-o e o coloca frente-a-frente com as grandes questões da vida e da morte.

Perspicaz e de grande vivacidade, o garoto Josei demonstra aptidão nata para os estudos, em especial a álgebra. Quando ainda no Ensino Fundamental, o adolescente Toda era constantemente chamado para substituir os professores, quando da ausência destes.

Sua curiosidade e sede pelo conhecimento tinham, na precária condição financeira da família, seu maior empecilho. Certo dia, ao visitar a casa de seu professor, admirou-se com as estantes repletas de livros sobre literatura universal e filosofia. O anfitrião, munido de profunda benevolência, desafiou-o a ler todos. Disse-lhe que emprestaria um de cada vez até que ele conseguisse esvaziar todas as prateleiras. Surpreso e feliz com o súbito oferecimento, aceitou e assim, tornou-se um leitor ávido e voraz, absorvendo todo aquele manancial de conhecimento que, mais tarde, seria a base de toda a sua impressionante obra.

Bem mais tarde, já um bem sucedido empreendedor, Toda declarou que tudo o que construiu de deveu àquele grande benfeitor de sua juventude. Em retribuição a este gesto, realizou doações de livros a escolas. Deste gesto surgiu a tradição da SGI de doar livros a bibliotecas escolares de todos os níveis – do Fundamental ao Superior – como forma de promoção da educação e da cultura.

Embora tenha concluído com louvor os estudos, em 1914, não pode prosseguir devido às dificuldades financeiras da família. Precisou buscar trabalho para ajudar no custeio do sustento da família.

Foi assim que em 1915, ingressou como aprendiz na Companhia Kokoro de Saporo, em Hokkaido, empresa do ramo de atacado de roupas, papelaria e miudezas. Embora o ambiente fosse pouco favorável aos estudos, aproveitava todos os momentos vagos para ler. Sua sede de conhecimento não se findara com os livros do professor.

Passados somente dois anos, com o vasto conhecimento adquirido nos livros e, apesar de não ter cursado o Ensino Superior, prestou o exame que o qualificava para professor-assistente do Ensino Fundamental 1.

Foi assim que em 1918 inicia sua carreira docente, lecionando para a 6ª série, na Escola Primária Mayati, em uma região remota de Yubari, cuja principal atividade econômica era nas minas de carvão. O jovem professor dividia a casa com um mineiro e as refeições eram fornecidas pela família de um de seus alunos.

Rigoroso mas ao mesmo tempo imbuído de um profundo respeito e amor pela educação, Toda não demorou a conquistar seus alunos. Tanto que muito tempo depois, mesmo tendo permanecido pouco tempo no local, sua atuação marcou profundamente a vida daquelas crianças pois, décadas depois, estes alunos já adultos ainda se lembrariam do jovem professor Toda, com muita saudade, repleta de estima e consideração.

Lecionava e estudava com afinco e, dois anos apenas depois, obteve aprovação nos testes que o habilitaram a lecionar Química, Física, Geometria, Álgebra e demais disciplinas regulares do Ensino Fundamental.

Corria o ano de 1920 e o jovem professor conseguira enfim firmar-se profissionalmente. Porém, a pobre e distante localidade não lhe oferecia as condições necessárias para dar continuidade aos seus anseios. Decidiu então – muito contrariado pois nutria grande afeição pelas crianças – tentar a sorte na capital do país, Tóquio.

Rumo à missão maior

Não foram fáceis seus primeiros meses na grande cidade. Buscou, sem sucesso, colocação no magistério. Teve que aceitar uma colocação menor, como office boy dentre outros serviços temporários. Mas o que mais o angustiava era a falta de um mentor, alguém que pudesse orientá-lo quanto as visões corretas e meios de obter seus objetivos.

Foi então que a sorte lhe sorriu: foi apresentado a Tsunesaburo Makiguchi, diretor da escola Nishimati, de Ensino Fundamental. Tinha sido advertido que este diretor caracterizava-se por métodos de ensino pouco ortodoxos, baseados em aguçar e fomentar as jovens mentes para a busca pelo conhecimento, não em memorização de conceitos e currículos rígidos. Ao ouvir sobre este educador, Toda exultou e, cedendo ao impulso, rogou para que Makiguchi o contratasse. “Posso transformar qualquer estudante atrasado em um excelente aluno!”, afirmou. Surpreso com a audácia daquele jovem de apenas 19 anos, Makiguchi cedeu, aceitando-o como professor substituto.

Foi dessa forma que se deu o encontro que mudaria radicalmente a vida de ambos. Toda buscava um mestre, e Makiguchi ansiava por um discípulo que o acompanhasse em sua luta por uma sociedade baseada em valores humanísticos.

Juntos, mestre e discípulo percorrem os caminhos de uma bem sucedida carreira docente que culminou na criação da Teoria do Sistema Educacional de Criação de Valores, obra que marcará o pensamento do grande educador Tsunesaburo Makiguchi, e pela qual será lembrado pela posteridade, através dos tempos.

Em 1928 são apresentados ao Budismo de Nichiren Daishonin e, tomados por súbita emoção, exultaram com o sentimento de familiaridade, pois os fundamentos da filosofia humanística contidos nos ensinamentos budistas de Nichiren eram exatamente aqueles por eles defendidos há vários anos. Com o propósito de difundir tais ideais, fundam a Soka Kyoiku Gakkai, em 18 de novembro de 1930, com Makiguchi como presidente e Toda como diretor geral.

A organização cresce sob a liderança da dupla e seus ideais expandem-se, promovendo uma onda de paz e tranqüilidade entre seus pares.

Porém, com o advento da Segunda Guerra Mundial, o militarismo toma conta do país causando grande sofrimento à Nação. O governo decide impor à população, a adoção do talismã xintoísta como forma de unificar o sentimento nacional em torno do esforço de guerra. Makiguchi e Toda recusam-se a renegar sua fé e são presos, em julho de 1943.

Em decorrência de uma desnutrição severa agravada pelos maus tratos, Makiguchi falece serenamente na prisão em novembro de 1944. Este fato irá marcar profundamente o discípulo que, posteriormente, se levantará sozinho para reconstruir a grande obra de seu mestre.

Josei Toda escreveu sobre o falecimento de Makiguchi: “Eu não soube de imediato sobre a morte de meu mestre. A última vez que o vi foi no inverno de 1943, no posto policial onde estávamos presos. Fomos encarcerados em celas estreitas e individuais. (...) Somente em 8 de janeiro de 1945, um ano e meio após ser preso, disseram-me que o Sr. Makiguchi havia falecido. Quando retornei à minha cela, não pude conter as lágrimas”.

A partir desta perda irreparável, Toda entrega-se totalmente à meditação e ao estudo das escrituras budistas, disposto a encontrar respostas aos seus mais profundos anseios, entre os quais, a melhor forma de honrar a memória de seu grande mentor. Em meio a estas sessões de meditação, oração e estudo, ele experimenta a infinita sabedoria proporcionada pela prática budista. Ele obtém a compreensão plena do Sutra de Lótus, atingindo a Iluminação. A importância deste acontecimento será decisiva no futuro.

Um mês antes do cessar-fogo, em 3 de julho de 1945, é um determinado e resoluto Josei Toda que caminha a passos trôpegos, deixando os portões da prisão. Quem o visse naquela manhã de verão, diria que se tratava de um pobre e combalido ser humano. Mas se observasse seus olhos flamejantes de paixão pela humanidade, diria que se enganara. Ali estava um homem que nem o pior cárcere podia abater.

Toda deixou a prisão aos 45 anos, e pesava menos de 40 quilos. Muito pouco para os seus quase 1,80m. Seu estado de saúde era menos que precário: tinha desnutrição, tuberculose, asma, cardiopatia, diabetes, e reumatismo. Além de diarréia crônica, e sua forte miopia havia sido agravada pela péssima condição física.

Por tudo isso e também pela falência completa de sua empresa, sabia que a tarefa que o aguardava era quase impossível. Decidiu mudar o nome da organização de Soka Kyoiku Gakkai – Sociedade Educacional para a Criação de Valores –, para simplesmente, Soka Gakkai – Sociedade para a Criação de Valores, algo mais sucinto e, ao mesmo tempo, abrangente, pois transcende os objetivos puramente educacionais, engajando-se de maneira mais ampla no campo da cultura. O objetivo básico manteve-se: a difusão dos ideais filosóficos de Nichiren Daishonin para a construção de uma cultura de paz, sólida e perene.

O encontro com o jovem de 19 anos, Daisaku Ikeda, em 1947, fechará um ciclo importante e coincidente que teve inicio em 1920, quando ele próprio conheceu Tsunesaburo Makiguchi, seu mestre. Ikeda, como ele próprio antes também aos 19 anos, buscava encontrar um mestre e uma verdadeira filosofia de vida que aplacasse seus anseios. Toda e Ikeda – mestre e discípulo – se tornam unos em seus ideais e juntos vão reconstruir a Soka Gakkai.

Como se percebesse que teria pouco tempo, Toda entrega-se totalmente à tarefa de reconstrução, fundando um jornal, o Seikyo Shimbum, edificando os núcleos de bairro, realizando reuniões e viajando por todo o país a fim de incentivar seus companheiros para perseverarem em seus esforços. Por toda a parte do Japão, homens, mulheres, jovens e crianças passaram a orar o mantra budista e, por meio de sua dedicação, obtinham grandes e incríveis progressos, transformando radicalmente suas vidas.

O ano de 1957 ficou marcado pelo impressionante número de 750 mil famílias atingido. No outono deste ano, a realização do festival anual esportivo do Núcleo Jovem reuniu cerca de 50 mil pessoas. E foi esse público que testemunhou o brado resoluto de um Josei Toda inabalável quando proferiu a célebre Declaração pela Abolição das Armas Nucleares, que se tornou seu testamento para os jovens de todo o mundo.

Poucos meses depois, em 16 de março de 1958, Toda lidera pela última vez uma atividade da Soka Gakkai. Esse dia ficou conhecido como o Dia da Paz Mundial, ocasião em que o mestre Toda delegou a cada um dos jovens presentes e aos vindouros, a tarefa de realizar a paz perene no mundo. Porém, um dos jovens presentes ao evento, tomará para si aquela tarefa e, liderando todos os demais se lançará para o mundo, realizando o sonho de seu mestre de difundir os ideais de paz e humanismo para todo o planeta. Este jovem é Daisaku Ikeda.

Naquele 16 de março de 1958, poucos poderiam prever que seria a última vez que veriam o mestre com vida. Duas semanas depois, em 2 de abril, o grande e destemido Josei Toda encerrou sua nobre e magnífica existência, serenamente, aos 58 anos, após realizar todos os seus anseios e os de seu mestre, Tsunesaburo Makiguchi. O palco agora era de seu jovem discípulo: Daisaku Ikeda!

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